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18/02/2006 13:08
FEIJÃO COM ARROZ OU ARROZ COM FEIJÃO?

Outro dia um amigo me perguntou o motivo que me levou a cursar História ao mesmo tempo em que faço Administração. Ninguém entende o fato de eu estar fazendo um curso tão diferente do que comecei primeiro. Volta e meia me perguntam isso e, definitivamente, cansei de dizer que é porque eu gosto. Sim, sempre amei estudar o passado, mas essa resposta não basta. Simplesmente gostar é desrespeito com a História e o incomensurável valor do seu estudo, pra dizer o mínimo. Além do mais, parece loucura dedicar o meu tempo a uma área que “não irá contribuir em nada na minha carreira de Administrador”, só porque eu gosto.

A partir de hoje, quero dar outra resposta às pessoas que me perguntam isso. Quero dizer que compreender o passado ajuda a dominar o presente, a legitimar ou invalidar tanto as dominações como as rebeldias. Estudar História é mais do que decorar fatos e datas. Para se estudar História, é necessário ler, interpretar, entender e interagir com os acontecimentos passados. História tem tudo a ver com Administração. Um administrador deve ser generalista, argumentador, persuasivo e o conhecimento do passado o ajudará, entre outras coisas, a não cometer os mesmos erros que outros. O início da evolução da teoria administrativa começou, basicamente, com Taylor em sua obra Administração Científica. Dos métodos de Taylor até os modelos atuais, altamente complexos, um grande caminho foi percorrido e podemos atribuir essa evolução ao método de pesquisa e investigação da Historiografia.

Entretanto, por eu vir a ser também administrador, não pretendo ser um historiador habitual. Os historiadores habituais procuram compreender o passado pelo presente. Dizem que não adianta nos esforçarmos por compreender o passado, se nada sabemos do presente. A lógica parece inescapável. Todavia, eu quero mesmo é ser diferente, quero caminhar do lado oposto da “pista”. Desejo andar na contramão dos historiadores. Penso que sem antes estudar o passado, nunca conseguiremos compreender realmente o presente. A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Ambiciono procurar neste respostas para aquele e, com isso, tentar transformar o futuro.

Na verdade eu nunca fui muito de seguir o modismo(exceto na adolescência, mas isso não conta, todo mundo é influenciável na adolescência!). Querer andar sozinho na direção oposta à da maioria parece loucura. Se Machado de Assis voltasse à vida e me visse falando isso, diria que sou um mentecapto e me incluiria numa possível continuação de O Alienista. Querer andar na contramão da historiografia e do mundo parece maluquice, mas quem disse que eu sou normal?! Quem disse que eu tenho razão?! Eu sou é biruta!

Se razão é fazer o que todos fazem, eu sou doidão. Certa vez ouvi uma poetiza descrevendo seu pensamento sobre isso. Ela dizia que a razão está sempre escondida. Isso a que normalmente damos nome de razão são máscaras, mentiras, equívocos, farsas. A nossa verdade anda sempre enterrada no fundo do nosso ser e colocá-la para fora é virar maluco aos olhos da sociedade “sã”.

Com outras palavras, o filósofo Hegel no prefácio a Fenomenologia do Espírito declara que a razão é sempre uma violência que se faz àquilo que normalmente se toma como verdade. A razão é sempre o contrário do que normalmente se pensa. Observação: Hegel era doido. Felizmente existiram outros doidos, como o poeta T.S. Eliot, que disse algo parecido: “Num país de fugitivos aquele que caminha na direção contrária parece estar fugindo”. Essa frase é interessante e parece resumir o que eu tento explicar sempre que alguém me diz que não existe nexo em fazer Administração e História.

Não, eu não estou maluco. Eu sou maluco. O psicanalista e escritor Rubem Alves em seu livro Cenas da Vida fez o diagnóstico de quem pensa como eu. A doença se chama poesia. Não penso que poesia só serve para ser recitada. Poesia é para se viver. E os poetas são todos doidos. Poesia é uma forma de loucura, tanto que Fernando Pessoa diz: “Tudo, menos ter razão!”. Se ele fosse normal diria o contrário: “Tudo, menos não ter razão!”.

E se Fernando Pessoa não chegasse, bastar-me-ia o Evangelho. Como Rubem Alves em um dos seus muitos livros declarou, também insisto em ler o Evangelho pelo avesso: lá tudo é ao contrário. Quem caminha na direção contrária é Deus. As pessoas religiosas vivem é tentando convencer Deus a andar na direção em que elas estão andando. Para isso até lhe oferecem suborno, rezas, sacrifícios. Mas Deus não muda de opinião. No famoso e belíssimo Sermão do Monte, Jesus manda termos misericórdia dos nossos inimigos. Isso é doideira. Maluquice maior é Deus dizer que todo velho tem que virar menino. Nicodemos ouvindo isso da boca de Jesus achou que era broma ou piração. “Velho não pode entrar de novo na barriga da mãe”, ele argumentou. Jesus lhe respondeu: “Tolo! Você não entende poesia? Isso é metáfora. Vá ver O Carteiro e o Poeta e só depois volte para conversar comigo!”.

Eu acredito no Evangelho, minha doideira é essa. Eu vejo claramente a ligação entre História e Administração. Detesto a saga de Harry Potter, mas amo as viagens de O Pequeno Príncipe. Eu escrevo poesia em prosa. Eu como Feijão com Arroz e não Arroz com Feijão.

Da próxima vez que alguém me perguntar porque faço isso ou aquilo, eu tentarei explicar. Sou compreensivo: coitado, ele não vive poesia. Ele é normal, racional. Igual a todo mundo. É previsível. Vê o mundo como todo mundo vê. Deve usar pijama de bolinha, cueca branca e assistir Jornal Nacional todos os dias. Come tédio com gosto. Todo mundo come. É normal. E se todo mundo come deve ser bom. Deve ser o jeito certo de se viver. Vai também morrer do jeito certo, sem nunca ter ousado ser diferente, sem nunca ter pensado diferente.

Na verdade, pensando bem, tentar explicar tudo isso é maldade. Se eu lhe abrir os olhos, vou estar lhe dando um enorme fardo para carregar. Ser diferente dá trabalho. É cansativo. Melhor mesmo é pensar que todos somos iguais. A gente não cobiça aquilo que desconhece. Vou facilitar as coisas. Ao invés de ficar tentando explicar o porquê, vou dizer apenas: é porque eu gosto.

enviada por Cayo Matheus






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